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Tarô — arte, história e espiritualidade

  • Foto do escritor: Bruna Cardoso
    Bruna Cardoso
  • 5 de dez. de 2024
  • 6 min de leitura

Texto escrito para @revistarogue | Edição 3 | parte da matéria Tarô — arte, história e espiritualidade em conjunto com Sthael Gomes e Matheus Chaves |


História


A matéria completa pode ser lida no instagram da revista @revistarogue



De uma forma ampla, o tarô é um conjunto de cartas constituído por 22 arcanos maiores e 56 arcanos menores. Os arcanos maiores são numerados de 1 a 21 e um deles, O Louco, não recebe numeração na maioria dos baralhos. Os arcanos menores são as cartas de jogar baralho normalmente e se dividem em quatro naipes, sendo eles: Paus, Ouros, Espadas e Copas, cada um com 10 cartas numeradas de 1 a 10 e mais 10 cartas, totalizando 40 cartas, além de mais 4 cartas para cada naipe (Rei, Rainha, Cavaleiro e Valete), somando mais 16 cartas. Aqui podemos lembrar que os quatro naipes, Paus, Ouros, Espadas e Copas, fazem relação com os quatro elementos fundamentais: Fogo, Terra, Ar e Água.

“O Tarô pode, enfim, ser entendido como uma linguagem simbólica que traduz o cosmo em sua constituição e eterna mudança, em sua estrutura e dinâmica.” (Riemma, Clube do Tarô)

Um dos possíveis significados para os arcanos maiores seria o de que a pessoa representada pelo Louco passaria por 21 fases evolutivas. O número 21 ainda representaria outras leis do universo. Como a Lei de Três, tudo para existir precisa de três forças, ou a Lei de Sete ou de Oitavas, que tudo se manifesta em processos de sete passos ou fases.


O tarô ainda pode ser visto pela perspectiva da peregrinação da alma ou caminho da vida, apresentando-se em cinco fases: infância, aprendizagem, companheirismo, mestria e, por fim, a sabedoria. Cada fase tem a sua porta, uma conselheira e uma atmosfera própria. Sendo assim, o tarô seria um jogo de lembranças contando nossas histórias, tornando-se, então, uma ferramenta de autoconhecimento, um guia para compreender passado, presente e futuro.


Não se tem uma origem precisa para o tarô. Na literatura internacional, há muitas suposições. O que se tem registro data entre os séculos XV e XVI no norte da Itália; com os baralhos conservados, não houveram grandes modificações. A convenção é que os arcanos menores tenham vindo de um baralho de jogo bastante difundido entre os guerreiros mamelucas; já a adição dos arcanos maiores permanecem desconhecidos.


Apesar disso, não se pode dizer que essa é a sua origem. Os arcanos maiores desses baralhos são coerentes com a iconografia cristã; porém, o mesmo não se pode dizer dos arcanos menores. Antes de começarmos, é importante salientar que os estudos acadêmicos normalmente levam em consideração indícios físicos para a comprovação. Temos, então, um elo perdido, que provavelmente está na tradição oral, entre as origens e o primeiro baralho a ser datado no norte da Itália no século XIV.


Há várias suposições sobre as origens do tarô. Uma delas diz que o surgimento pode ter acontecido em 64 anos após a divisão da Igreja Católica em 1054 em duas: Católica Apostólica Romana (Ocidental), sob a liderança do Bispo de Roma, o Papa; e Católica Apostólica Ortodoxa ou Grega (Oriental), época essa que coincide com o provável surgimento dos cavaleiros templários, que eram os protetores da cristandade em tempos de cruzadas por volta de 1096 e 1272.


Nesse pensamento, o Tarô seria uma criação de escolas francesas e/ou italianas, no final do séc. XII, sem ligação com indianos ou com chineses. Um ponto a favor desse pensamento é o de que não há indícios dos arcanos maiores em outras culturas.


No tarô clássico, boa parte das imagens dos arcanos maiores tem uma grande relação com a iconografia cristã, que vemos nas catedrais góticas construídas a partir do século XI. Ainda há estudos que estabelecem relações entre o tarô e a Cabala. Os 22 arcanos têm o mesmo número do alfabeto hebraico e dos 22 caminhos ou conexões da Árvore da Vida. As quarenta cartas numeradas dos arcanos menores têm o mesmo número de sefirot da “Escada de Jacó”, que resulta da superposição de quatro árvores da vida.


Ainda com esses indícios próximos, existe também a possibilidade das influências de outras culturas desse período histórico. Há alguns estudos que afirmam que as cartas foram levadas à Europa pelos cruzados, porém, a última cruzada terminou por volta de 1291 e só se vão ter registros de cartas de jogar, pelo menos, cem anos depois. Uma das justificativas é o nome português e espanhol que deriva do árabe naibi; porém, a palavra hebraica naibes se assemelha ao nome dado em italiano, nas duas línguas, significa bruxaria, leitura de sorte e predição.


A restrição histórica não deslegitima a hipótese de criação e recriação do que conhecemos como Tarô por meio de várias culturas. Com destaque para a Península Ibérica, temos indícios de que cristões, árabes e judeus mantiveram uma convivência criativa quando o Tarô dá seus primeiros sinais. Árabes já usavam, em meados do século XIV, um baralho com 52 cartas com estrutura bastante parecida, com os arcanos menores e o baralho de sarraceno, porém as origens desse baralho também não são esclarecidas.


Há também a hipótese, bastante difundida no Brasil, a qual associa a origem das cartas aos ciganos vindos do Hindustão. O que se tem disponível de registro é que eles tenham começado a chegar na Europa apenas no século XV. É de conhecimento que um grupo de ciganos chegou perto de Hamburgo na Alemanha em 1417; já outros relatos situam eles em Roma, em 1422, e Barcelona e Paris, em 1427. Entretanto, as peregrinações só se expandiram depois que as cartas já eram conhecidas a um tempo.


É importante pontuar que o jogo de cartas que conhecemos como Baralho Cigano, no Brasil, é o Petit Lenormand (O Pequeno Lenormand), jogo com 36 cartas impresso na França a partir de 1840.


Outra hipótese é de que a origem é egípcia. Essa hipótese foi levantada por Court de Gebelin na sua obra Le Monde Primitif analysé et comparé avec le monde moderne (1775); um estudioso da mitologia antiga, o autor estabeleceu algumas correlações entre os ensinamentos tradicionais e as cartas do tarô que, para ele, seriam alegorias de antigos hieróglifos egípcios. É importante pontuar que, para os estudos, foram usadas as cartas do Tarô clássico. Os baralhos como motivos egípcios foram aparecendo apenas posteriormente.


Não é implausível pensar que o tarô tenha nascido em 1180, um período de grandes forças criativas na Europa, mesmo que as primeiras menções tenham sido registradas apenas em 1391. A razão aqui seria simples: o tarô não tinha função lúdica de jogos de cartas, apostas ou outros, mas de estimular a reflexão pessoal no caminho espiritual. Assim, ele não seria citado nos registros de jogos de cartas.


Os baralhos da Europa do século XIV tiveram uma produção pequena, já que eram pintados a mão, e isso desenvolveu variedades nos sistemas das cartas, ordem etc. O jogo teve expansão pelo sul da França, pela Suíça, pela Bélgica e pelo sul da Alemanha pelo então Império Austro-Húngaro. Já com a invenção da imprensa e da produção em grande escala, a fabricação das cartas passou a ser mais padronizada.


Já no século XVIII, os fabricantes de cartas italianas já tinham padronizado as figuras dos arcanos menores, mesmo que com desenhos diferentes. Há ainda variações regionais quanto a ordem.


Até o fim do século XVII, o principal produtor de cartas era Milão; dessa cidade, a produção se expandiu para o sul da França e era baseada nas cartas de Milão. No fim do século XVII, a indústria de cartas de Milão entrou em colapso, e as cartas do sul da França dominaram o mercado.


Vários desses baralhos sobreviveram, mas o mais conhecido foi o baralho da cidade de Marselha, o Tarô de Marselha, que se espalhou pela Lombardia e influenciou na produção das cartas na Itália e na Europa. Um derivado, chamado tarô de Besançon, dominou o mercado em meados do século XVIII fora das regiões de Itália e Bélgica.


Até então, os tarôs usavam o sistema de naipes que era usado na produção de cartas de baralhos comuns, os naipes espanhóis. Em 1470, os fabricantes da França desenvolveram o sistema francês. Que são os símbolos utilizados atualmente.


A maior difusão do uso esotérico do tarô veio de um ocultista francês chamado Alliette, sob o pseudônimo de Etteilla, o seu nome ao contrário, que atuou como vidente depois da Revolução Francesa, adicionando atributos astrológicos e motivos egípcios a muitas cartas e incluindo os textos com significados escritos a cartas.Depois, Mademoiselle Marie-Anne Le Normand popularizou a divinação durante o reinado de Napoleão I, por causa da influência que tinha por proximidade a Josefina de Beauharnais, primeira esposa do monarca. Contudo, ela não usava o tarô comum.


Para alguns, o código místico foi mais desenvolvido por Eliphas Lévi (1810–1875), considerado por alguns o verdadeiro fundador das modernas escolas de Tarô. Ele aceitava a ideia de Court Gebelin sobre as origens egípcias do tarô, mas rejeitava as modificações que Etteilla fez. Lévi fez um sistema que relacionava o Tarô de Marselha à Cabala Hermética e aos quatro elementos da alquimia.


A partir de 1910, com a publicação do Tarô de Rider-Waite-Smith, elaborado e executado por membros da Aurora Dourada, o tarô divinatório ficou muito popular nas Américas. Ele substituía a tradicional simplicidade das cartas numeradas de naipe por cenas simbólicas, e mudou alguns atributos, como O Hierofante no lugar do Papa e Alta Sacerdotisa pela Papisa. Esse tarô ainda é popular no mundo anglófono.


Independente de qual for sua origem, as múltiplas influências que o tarô que conhecemos hoje são inegáveis, seja no próprio baralho ou nas interpretações no decorrer do tempo. É praticamente unânime que não é uma invenção casual; tem-se um fundamento simbólico que, para muitos, traduz as mensagens do Cosmos


 
 
 

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