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O cinema de animação do Studio Ghibli — O conforto no vazio

  • Foto do escritor: Bruna Cardoso
    Bruna Cardoso
  • 5 de dez. de 2024
  • 9 min de leitura

Texto escrito para @revistarogue | Edição 3 | parte da matéria O cinema de animação do Studio Ghibli — O conforto no vazio


Foi em um ponto de ônibus, assim como a cena de Meu vizinho Totoro (1988) que a amizade de Isao Takahata e Hayao Miyazaki, que fundariam mais tarde o Studio Ghibli, começou. Mas foi posteriormente na Nippon Animation durante a produção de Heidi: A menina dos Alpes (1974) que perceberam que estavam cada vez mais imersos na lógica da produção rápida, e que para fazer as obras da forma que queriam precisavam de prazos menos apertados do que nas séries de televisão.


Miyazaki saiu da Nippon para conduzir outras produções. Em 1979 lança seu primeiro filme O castelo de Cagliostro (1979) e logo depois ele faz o mangá Nausicaä do Vale do Vento (1982), que inicialmente não tinha adaptação prevista. Miyazaki pede para que Takahata produza a adaptação do mangá com ele. Então em conjunto com a produtora TopCraft, o filme Nausicaä do Vale do Vento (1984) é lançado. Um ano após o sucesso de Nausicaä, Miyazaki, Takahata e Toshio Suzuki se juntam para produzir outras animações da forma deles, assim nasce o primeiro filme do Studio Ghibli: O castelo no céu (1986), que levou 775 mil pessoas aos cinemas sendo um sucesso de bilheteria e de crítica.


Dois anos depois, inovando, o estúdio decide lançar dois filmes ao mesmo tempo, Túmulo dos vagalumes (1988) dirigido por Takahata e Meu vizinho Totoro (1988) por Miyazaki; os filmes foram lançados no mesmo dia em uma sessão dupla. Os longas já ditam o tom com que cada diretor conta suas histórias. Se por um lado temos o visceral e bem dolorido Túmulo de vagalumes, por outro, temos a leveza e fantasia inocente de Totoro. No ano seguinte, o sucesso dos dois filmes fez com que Serviço de entregas da Kiki (1989) levasse 2,4 milhões de telespectadores ao cinema, fazendo dele o filme mais visto do Japão naquele ano. A animação teve um papel importante na história do estúdio, permitindo a mudança na forma em que aconteciam as contratações dos animadores. A partir daí, os funcionários trabalhavam integralmente e com salário fixo.


Isso só foi possível graças a outra figura importante, o presidente do Studio Ghibli, Yasuyoshi Tokuma, um grande empresário japonês que acreditava no estúdio. Ele deu a liberdade para que Miyazaki e Takahata tomassem decisões, dificilmente intervindo. As mudanças geraram altos custos que foram compensados pelo próximo filme de Takahata, Memórias de ontem (1991). Ainda na produção desse, o desenvolvimento do próximo filme, Porco Rosso: o último herói romântico (1992), foi iniciada. Com isso, o local ficou apertado, o que gerou a necessidade da construção de um novo espaço. Em 1992, Porco Rosso foi lançado e a nova sede em Tóquio inaugurada. Em 1993, foram compradas duas câmeras computadorizadas que fizeram o núcleo de fotografia possível. Isso tornou o estúdio “autossuficiente”, todas as etapas da produção eram feitas lá.


No mesmo, o primeiro filme não dirigido por Miyazaki ou Takahata foi lançado. Eu posso ouvir o oceano (1993), dirigido por Tomomi Mochizuki, foi um filme de setenta minutos produzido para televisão com menos recursos que os outros até então lançados. No ano seguinte, o primeiro filme do estúdio a usar computação gráfica PomPoko: a grande batalha dos guaxinins (1994) foi lançado e também foi o mais visto naquele ano.


Com Miyazaki na produção e no roteiro, Sussurros do coração (1995) é lançado. Dirigido por Yoshifumi Kondo, que já havia trabalhado nos filmes Túmulo dos vagalumes, Kiki e Memórias de ontem. Dois anos depois, Princesa Mononoke (1997) estreia, trazendo uma notoriedade internacional ainda maior para o estúdio. O filme também usa computação gráfica para as cenas mais complexas de se fazer à mão.


No ano seguinte, a morte de Yoshifumi Kondo abalou fortemente a companhia: vários funcionários saíram e o próprio Miyazaki se afastou oficialmente. Na mesma época, ele funda uma nova empresa chamada Buta-ya, mas no ano seguinte retorna com novos planos. Em 1999, Meus vizinhos, os Yamadas (1999) é concluído. O filme é todo computadorizado em sketches aquarelados foi o último filme feito por Takahata até o anúncio de outro longa-metragem em 2008, filme que só foi lançado em 2013.


Em 2001 A viagem de Chihiro (2001) é lançado. Dirigido por Miyazaki, foi um sucesso internacional, ganhando vários prêmios como o Urso de Ouro em Berlim e o Oscar de Melhor Animação; o filme só chegou aos cinemas brasileiros no ano seguinte. O Reino dos Gatos (2002), filme ligado a Sussurros do coração é lançado. O castelo animado (2004) baseado no livro britânico de mesmo nome foi outro filme de grande projeção internacional e também foi indicado ao Oscar. Contos de Terramar (2006), dirigido por Goro Miyazaki, filho de Hayao Miyazaki, foi uma produção polêmica: causou certa estranheza pela narrativa não linear e um pouco diferente dos outros filmes do estúdio. Isso gerou para o longa alguns prêmios, positivos e negativos, por todo o mundo.


Desenhado totalmente à mão sem nenhuma computação gráfica, Ponyo: uma amizade que veio do mar (2008) demorou alguns anos para ser concluído e foi um sucesso no mundo inteiro. No mesmo ano, o estúdio também abriu sua abrangência para o mundo dos jogos com Ni no Kuni.


O Mundo dos Pequeninos (2010), com a direção de Hiromasa Yonebayashi chegou a levar 7,5 milhões de pessoas ao cinema, um marco para um diretor estreante. Goro Miyazaki retornou em 2011 com Da colina kokuriko (2011), sendo esse melhor recebido pela crítica e pelo público que seu filme de estreia. Takahata e Miyazaki retornam para outro lançamento concomitante em 2013: Vidas ao vento (2013) e O conto da princesa Kaguya (2013); com o último, Takahata rompia o hiato de quatorze anos sem lançar longas metragens. Os dois tiveram excelente recepção, sendo indicados ao Oscar de Melhor Animação em 2013 e 2014. Durante a produção dos dois filmes, o documentário Studio Ghibli: Reino dos Sonhos e da Loucura (2013) com roteiro e direção de Mami Sunada, foi rodado.


Em 2014 tivemos o anúncio da primeira série do estúdio: Ronja, a filha do ladrão (2014) dirigida por Goro Miyazaki. Nesse mesmo ano, Hiromasa Yonebayashi lançou o filme As memórias de Marnie (2014) e logo após se desligou da empresa. Apesar da pausa nos longas-metragens, o estúdio não encerrou suas atividades. Em 2015, Miyazaki volta de sua aposentadoria para o curta-metragem Boro, a Lagarta, inicialmente concebido em Princesa Mononoke. Foi o primeiro curta dele produzido totalmente em computação gráfica e teve a exibição exclusiva no Museu Ghibli.


A morte de Isao Takahata em 2018 foi uma grande perda para o estúdio; Faleceu aos 82 anos devido a um câncer de pulmão. Depois dessa grande perda, a companhia retorna dois anos depois, em 2020 com uma nova era. Em sua tradicional mensagem de ano novo, o estúdio anunciou a produção de dois longas metragens.


Um dirigido por Hayao Miyazaki, Como vocês vivem? , ainda sem data de lançamento (O filme mudou de nome desde a publicação da matéria em 2021, com o título O Menino e a Garça foi lançado mundialmente em 2023) , e o segundo dirigido por Goro Miyazaki, Aya e a Bruxa (2020)*, o primeiro filme em 3D do estúdio. O longa já lançado ainda não tem data para chegar ao Brasil. (agora o filme pode ser visto na Netflix)


O conforto no vazio


Os filmes do Studio Ghibli dão conforto. O conforto que tenho ao assistir aos filmes se encontra na forma como eles usam o vazio na construção de toda narrativa. Seja pelos temas explorados, trilha sonora, ritmo ou na estética usada. Quando pensamos na cultura oriental de forma bastante abrangente e generalista em manifestações artísticas, conceitos gerais se repetem: silêncio, subjetividade, intervalo, invisível, dissolução, respeito e calmaria. É o que vemos se repetir nas obras da companhia.O vazio é usado de forma intencional. Miyazaki usa o conceito de “MA”

O “MA” é uma potência, um devir, uma possibilidade que pode se manifestar de várias maneiras. Não é algo linear e se manifesta de 3 formas distintas: 1) vazio; 2) espaço entre, isto é, uma zona de suspensão, uma coexistência na dualidade; 3) espaço e tempo, como uma preparação para se chegar a um novo lugar, quase espiritual. Se nos apegarmos ao “MA” como um tempo necessário como preparação para o que está por vir, então vivemos o estado “MA” nos dias de hoje, na efemeridade e na impermanência da vida.(ENTRETEMPOS, Folha da São Paulo)

Isso se manifesta nas pausas que os filmes fazem construindo o ritmo da história. Seja o personagem observando a paisagem, fazendo uma viagem de trem ou um voo pela cidade, são períodos para noção de tempo, espaço para que saibamos quem é aquele personagem.Observamos que no mundo ocidental, que está cada vez mais rápido e com mais informações, tal perspectiva acaba se chocando com essa outra forma de ver. Se em boa parte dos filmes notamos as regras e convenções sendo seguidas nos filmes do estúdio, podemos descobrir outra forma de contar histórias. É além do certo e do errado, são só maneiras diferentes.

Assim constata Flusser: Podemos observar como surgem formas entre as mãos dos orientais, por exemplo, ideogramas escritos com pincel, flores de papel (…). Em todos esses casos não se trata de uma ideia imposta sobre algo amorfo; trata-se de fazer surgir de si mesmo e do mundo circundante uma forma que abarque ambos. (FLUSSER apud TEIXEIRA; NAKATA, 2007, p. 208)

Mas as animações não são só a parte visual; boa parte da imersão das histórias se dá pelas trilhas sonoras. A maioria de Joe Hisaishi, são um ótimo exemplo de tempo de respiro. O silêncio é outro ponto a ser visto. Nos Estados Unidos e no resto do mundo de forma geral o silêncio é evitado, visto como erro ou falha no processo. Portanto, muitos filmes do estúdio sofreram alteração nas trilhas para a distribuição nos Estados Unidos. O vazio no som não é visto como uma informação, como no Oriente.

“No Oriente, além da palavra, o próprio silêncio passou de pai para filho, e, no que tange à questão da tradição, o silêncio é compreendido como informação” (AZEVEDO apud TEIXEIRA e NAKATA, 1994, p.75).

As obras são bastante imagéticas, é possível compreendê-las mesmo com a ausência de falas. Isso se dá principalmente pela forma com que as animações são feitas. O roteiro é construído junto com os storyboards e os diálogos são inseridos depois. Cada cena é muito importante e recebe muita atenção; durante o processo não se sabe como o filme vai acabar.A animação é feita na base da sutileza: tanto a constituição estética, quanto a psicológica, a sonora e das movimentações, o que normalmente não é visto, já que em boa parte dos casos vemos o uso do exagero para passar emoções. Como tudo tem uma atenção especial, os personagens (sejam eles humanos ou não), ganham vida realmente na singularidade de cada um. Ao observar as cenas observamos como as movimentações de cada parte são detalhadas, explicitando a observação do mundo dos animadores. É tudo muito único.


Ainda que os filmes do estúdio sejam dirigidos por variados diretores, percebemos um padrão, o uso desse vazio e das pausas. Ainda sim vemos o toque de cada um nos filmes. Como por exemplo os filmes dirigidos por Takahata tem um tom mais melancólico e sutil. O conto da Princesa Kaguya (2013) me deixou parada na frente da tela por pelo menos dez minutos tentando entender o que estava sentindo. Não era tristeza que com certeza terminei O túmulo dos Vagalumes (1988), era algo mais terno, mais calmo.

Castelo animado (2004) e Serviço de entregas da Kiki (1989), ainda que com bastante fantasia, nos permitem bastante espaço para completar com nossas próprias vivências por meio dos temas: amadurecimento e encontrar seu lugar no mundo. Miyazaki consegue fazer com que mesmo com o fantástico, a realidade desses filmes seja bastante imersiva.As histórias tem um quê de mistério em grande parte dos filmes, são obras que levam o tempo que precisam para construir seus mundos e narrativas, mesmo que todos os aspectos não sejam o tempo inteiro explicados. Como em O castelo animado, não tem o porquê explicar para alguém que não entende magia como funcionam os feitiços, nos sentimos como Sophie na história.


Em todos os casos, o que mais cativa são as emoções subjacentes dos filmes. São emoções “pão”, que crescem bastante dentro da gente depois que terminamos de assistir. Acontece principalmente em Princesa Mononoke (1997) e Nausicaä: o Vale Do Vento (1984), acreditando-se que por causa dos temas: a nossa relação com a natureza e a noção de pertencentes a ela. O conforto que os filmes do Studio Ghibli trazem está nas ausências e o que encontramos nelas.


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REFERÊNCIAS

Studio Ghibli. Studio Ghibli Brasil, 2020. Disponível em: <https://studioghibli.com.br/studioghibli/>. Acesso em: 27 de janeiro de 2021

Studio Ghibli: Reino dos Sonhos e da Loucura. Direção de Mami Sunada.Japão, Dwango, 2013. (101 min.).

A poesia e o vazio na obra de Hayao Miyazaki. Avelola, 2018. Disponível em: <http://www.avelola.net.br/poesia-e-o-vazio-na-obra-de-hayao-miyazaki/>. Acesso em: 27 de janeiro de 2021

A importância do vazio. Textos para reflexão, 2017. Disponível em: <https://textosparareflexao.blogspot.com/2017/09/a-importancia-do-vazio.html>. Acesso em: 27 de janeiro de 2021

Studio Ghibli E Hayao Miyazaki: A História De Uma Lenda . Omelete TV, 2021. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=e5UGsVhYkC8&>. Acesso em: 27 de janeiro de 2021

Explicando Studio Ghibli . Purin, 2020. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=6Ur_2q-6Mi4>. Acesso em: 27 de janeiro de 2021

Hayao Miyazaki- A importância do vazio. Entre Planos, 2016. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=Kyp3YV2t0gQ>. Acesso em: 27 de janeiro de 2021

The Immersive Realism of Studio Ghibli. Asher Isbrucker, 2016. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=v6Q6y4-qKac&>. Acesso em: 27 de janeiro de 2021

TEIXEIRA,Samanta Aline e NAKATA, Milton Koji .Estúdio Ghibli: Um Aparato Sobre As Técnicas Ilustrativas E Filosofia Oriental Dos Principais Longas-metragens De Hayao Miyazaki. São Paulo, 2014. Disponível em: <https://repositorio.unesp.br/handle/11449/135701>. Acesso em: 27 de janeiro de 2021


 
 
 

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