O erótico como poder
- Bruna Cardoso
- 5 de dez. de 2024
- 5 min de leitura
Texto escrito para @revistarogue| Edição 1| parte da matéria sex@ pós-pandemica escrita em conjunto com Sthael Gomes, Matheus Chaves e Lucas Nunes | A matéria completa pode ser lida no Instagram da revista

“Por que o erótico não diz respeito ao que fazemos; ele diz respeito à intensidade e a completude que sentimos ao fazer” — Audre Lorde
Assim como outros tipos de poder, seja de forma direta ou indireta, o erótico é um potencial que nós temos intrínseco.
Audre Lorde no texto ‘’Os usos do erótico: O erótico como poder’’, se refere a tal como uma espécie de condão, “fonte de poder e informação”, que em frequência é deturpado e usado pelos homens contra as mulheres, o transformando em uma sensação confusa, trivial e plastificada. É algo extremamente semelhante com o que a grande indústria pornográfica produz e reproduz, uma castração capaz de dissimular o potencial erótico, invalidando a manifestação do mesmo, em sua totalidade, quando em corpos e espaços não-falocêntricos.
É muito fácil entender por que isso acontece, para a perpetuação de sistemas de opressão, é necessário que o opressor corrompa e deturpe as fontes de poder do oprimido, para que este não consiga as forças necessárias para a mudança; sendo submetido a um sentimento de culpa, vergonha e não pertencimento. Se reconhecendo como uma parte indigna de prazer, e autora da própria hiper sexualização, tendo sua imagem demonizada sempre. É de interesse de um mundo patriarcal e racista que não se acesse o poder do erótico como fonte de energia.
Para Lorde, reconhecer e usar esse poder nas nossas vidas pode nos dar a energia precisa para lutarmos por mudanças efetivas em nosso mundo. No mesmo texto, ela diz que compartilhar o gozo nas mais variadas formas é criar uma ponte entre as pessoas que dele compartilham e gerar um senso empático, diminuindo suas diferenças.
E foi no compartilhar da Paula e da Brunna que o Wet Vivid Dreams começou. Conversamos com as duas sobre o projeto cujo prazer é provocar em seus leitores a busca por um erótico mais real, com todas as suas vulnerabilidades, e pertencimento. Afinal, se é preciso regozijar a vida, então que todes possamos gozar.
Como surgiu o projeto?
[17/8 16:18] Paula:@pjaycob: O Wet Vivid Dreams surgiu de uma forma muito espontânea. Eu, Paula, já tinha alguns contos eróticos guardados, que tinha escrito há algum tempo. Sempre gostei de escrever contos, poemas, histórias (não necessariamente eróticas), mas as deixava nos meus inúmeros cadernos, apenas.
Quando vi a Brunna compartilhando nos stories que estava pensando em fazer ilustrações eróticas, logo mandei mensagem para ela falando da minha escrita e marcamos um almoço para conversar melhor. Isso no segundo semestre de 2019. A ideia inicial era fazer um livro físico. Mas, as coisas foram acontecendo, vida, trabalhos… e quarentena. A ideia do livro ficou em segundo plano e decidimos transformar o projeto em algo virtual.
Daí surgiu o @wetvividdreams. Aproveitamos que as pessoas estavam (e estão) em casa, muitas sozinhas isoladas, e a temática do autoconhecimento do corpo, da masturbação, da sexualidade positiva e do erótico começou a ganhar corpo. Foi o momento ideal para lançar o perfil.
[17/8 16:18] Brunna:@brunnamancuso: Ao longo dos últimos anos, venho desenvolvendo um olhar pelo feminino e explorado formas de retratar mulheres confiantes e sensíveis. Dentro dessa pesquisa artística, nasceu um arquétipo feminino muito seguro de si, principalmente quando falamos de sexualidade. Uma mulher naturalmente sensual e confiante.
Eu sempre compartilho muito do meu processo na minha conta do Instagram, e entre esses posts, uma seguidora me sugeriu ilustrar contos eróticos. Achei a ideia tão legal que compartilhei, e foi quando a Paula veio me contar que, por acaso, ela escrevia contos eróticos. Quando ela me mandou alguns parar ler, eu me apaixonei na hora! Ví que nossas linguagens, texto e imagem, tinham muita conexão e se complementam de forma a potencializar nossas narrativas. Ainda demorou alguns meses de amadurecimento da ideia, mas quando o Wet Vivid Dreams nasceu ele já estava pronto para conquistar o mundo (sim, pareço ambiciosa, mas é que sou muito apaixonada pelo projeto haha).
Como ele funciona?
[17/8 16:20] Paula:@pjaycob: Ele é uma parceria muito feliz e de cumplicidade entre eu, Paula, que assino os contos, e a Brunna, que faz as artes e ilustrações. Como duas artistas de áreas diferentes, sabemos e respeitamos nossos momentos de criatividade ou não, para não colocar pressão em ninguém — afinal, não é isso que queremos. Planejamos pelo menos um post por semana no perfil, de acordo com o layout que desenvolvemos para o feed. Temos poemas + ilustrações, contos em cards, ilustrações e gifs. Tudo é conversado entre nós, quando escrevo mando para a Brunna ler, quando ela desenha, me manda para eu ver. A sinergia criativa entre nós é muito grande, então parece que uma lê a mente da outra.
A Brunna disse uma vez que se ela escrevesse, provavelmente escreveria como eu; e se eu desenhasse, desenharia como ela. Parece que as nossas diferentes formas de se expressar casaram muito bem. E os contos e ilustrações partem de lugares subjetivos de cada uma de nós, sobre o olhar diante da sexualidade, do erótico, do íntimo, considerando a mulher como sujeito disso tudo. Uma ilustração inspira um texto, e vice-versa. Mas há também as ideias independentes: eu escrevo um conto e isso não necessariamente vira uma ilustração, por exemplo.
Às quartas-feiras, nós também nos propusemos a fazer uma curadoria de perfis e reportagens que pensam a sexualidade de forma construtiva, sem imposições ou invasões. O Wet Wednesdays é uma sequência de stories para mostrar ao nosso público conteúdos relevantes em torno da temática. A gente criou um perfil de arte, inspiração, poesia sobre uma coisa que ainda é muito tabu na sociedade. Mas não somos especialistas, nem médicas. Há muitas mulheres produzindo conteúdo informativo de qualidade por aí. Queremos dar espaço para elas no nosso perfil.
[17/8 16:18] Brunna:@brunnamancuso: Ele funciona de forma muito orgânica. Quando eu tenho ideia de alguma ilustração compartilho com a Paulinha e ela entra com o texto a partir da imagem, mas também acontece muito dela trazer o texto e eu desenvolver a ilustração a partir dele. É um projeto de co-criação, mesmo, e nós duas temos o mesmo espaço para criar dentro dele.
Como vocês veem a questão do erótico e a importância para as pessoas que se relacionam com o trabalho de vocês?
Paula:@pjaycob: O erótico é muito subjetivo. Entender o que você considera erótico demanda um autoconhecimento e também se desvencilhar de tudo o que a sociedade impõe como erótico — caso do pornô mainstream, que só perpetua estereótipos e relações sexuais irreais. Nos contos, busco explorar o quanto o cotidiano pode ser erótico, sexy. O quanto ver seu/sua parceire cozinhar pode ser erótico, ou sentir tesão dando prazer para a pessoa com quem se transa, ou sentir prazer ao se dar prazer, se conhecer em cada detalhe, pedaço, se permitir sentir, abraçar a vulnerabilidade, a entrega. O erótico é muito sutil, como o toque da pele, dos tecidos, de olhares, cheiros, gostos.
Mas, de novo, ele é muito único e subjetivo. Sempre trago elementos da natureza, do cosmos, do cinema e da literatura para as histórias, o que as torna bem sensoriais e dá espaço para o leitor imaginar bastante. É uma troca, o conto nunca acaba nele mesmo. O leitor faz parte desse processo, o que cada um imagina ao ler é diferente, é subjetivo, é a sua parcela diante do erótico que completa essa história. Gosto de pensar que com meus contos consigo fazer o público enxergar o quão bonita é a intimidade, consigo mesma ou com parceires. Sempre fomos ensinades a nos distanciarmos dos sentimentos, do corpo, do que é nosso.




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