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Levantando da mesa com Nina Simone

  • Foto do escritor: Bruna Cardoso
    Bruna Cardoso
  • 5 de dez. de 2024
  • 10 min de leitura

Texto escrito para @revistarogue | Edição 3 | parte da matéria A Construção do Arquétipo Bruxa em conjunto com Sthael Gomes



A matéria é acompanhada por um playlist que pode ser ouvida aqui


⏪◀️ ❚❚ ►⏩ Little Girl Blue

Uma garotinha e um piano, é assim que começa. Seu nome era Eunice Kathleen Waymon, nascida em 21 de fevereiro de 1933 em Tryon, na Carolina do Norte, onde deu os primeiros passos para se tornar Nina Simone. Ela ainda era uma menina de três anos tocando piano na igreja que frequentava com os pais, quando a chefe de sua mãe a viu tocar e decidiu pagar as suas aulas de piano.

Ela atravessava a ferrovia, a divisão da cidade entre brancos e negros, para ter as aulas com sua professora Muriel Mazzanovich. Foi durante as aulas que a paixão por Johann Sebastian Bach, Chopin, Brahms, Beethoven e Schubert, cresceram. E ela, então, decidiu que seria a primeira pianista clássica negra americana. Para ajudar a financiar os estudos de música, sua professora montou o fundo Eunice Waymon.



Ain’t Got No/ I Got Life

Eunice terminou o ensino médio e tentou o exame para uma bolsa de estudos no Curtis Institute, mas não foi aceita. Ela só percebeu algum tempo depois que o fato estava relacionado a sua cor de pele. Ainda em busca de seu sonho, ela junta dinheiro com ajuda do fundo criado por sua professora e se muda, um ano depois, para Nova York, para ingressar no Conservatório de Julliard, onde estudou música por um ano e meio. Na mesma época, sua família se muda para Filadélfia para ficar perto dela.



I Sing Just To Know That I’m Alive

Para financiar seus estudos e ajudar sua família, Eunice começa a se apresentar no Midtown Bar & Grill, na Pacif Avenue, onde tocava tudo o que conseguia tocar. O dono insistiu para que ela também cantasse, se não ficaria sem emprego. Tímida, ela começou a cantar e seguiu cantando por muito tempo.

Em 1954, ela conhece seu primeiro marido Don Ross, um escritor com ascendência mexicana que trabalhava nas feiras de arte da cidade. Ele a apelidou de Niña. Eunice gostou do nome e juntou com “Simone”, da atriz francesa Simone Signoret. Assim, aos vinte anos, para poder cantar escondido de seus pais, Eunice Waymon se torna Nina Simone.


No documentário What happened Ms. Simone? (2015), com entrevistas resgatadas, ela diz que tocar e cantar não foi uma escolha naquela época: “sempre foi questão de necessidade do dia-a-dia fazer o que faço”. Em 1958, casa-se com Don Ross, mas devido às muitas crises de ciúmes e traições eles se separam em 1959 e Nina decide voltar a viver sozinha em Nova York. A cantora chamou atenção de Syd Nathan, dono da Bethlehem Record que ofereceu o primeiro contrato discográfico. O álbum Little Girl Blue (1958), com a música My Baby Just Cares For Me a colocou no mercado, onde sua carreira como intérprete de jazz e blues começou a despontar.


My Baby Just Cares for Me

Através de um amigo em comum, Nina conhece o detetive de polícia de Nova York Andrew Stroud, em uma de suas apresentações. Poucos meses depois, em 1960, vão morar juntos e se casam em 1961. Ele se aposenta da polícia e passa a ser empresário de Nina.

Eles se mudam para uma casa em Mount Vernon, em Nova York, onde em doze setembro de 1962, nasceu a única filha do casal Lisa Simone Waymon Stroud. Um ano depois, apoiada por seu marido Nina realiza um sonho, se apresenta no Carnegie Hall, motivado pelo desejo da infância de ser a primeira pianista clássica negra.


The Other Woman

Mesmo com o sucesso de sua carreira, algo ainda a incomodava. Nina se viu cada vez mais dentro do trabalho. Quando os shows acabavam, todos iam embora. Ela ainda estava lá. Sozinha. Lutando com os próprios demônios, cada vez mais raivosos e furiosos.

“Tudo o que eu fazia era trabalho, trabalho, trabalho. Vivia cansada, sempre cansada. Nunca consegui dormir. Tem sempre música na minha cabeça, ou seja, quanto mais eu tocava menos eu conseguia relaxar” (What happened Miss. Simone? ,2015)

Ela se sentia triste por trabalhar tanto e estar distante de sua filha. Com isso, a raiva crescia. Os músicos que tocavam com ela relatam que eles tinham que ser cuidadosos, pois ela poderia se irritar e arrumar briga a qualquer momento. Sair do palco, durante as apresentações, devido a algo na plateia, faziam parte de sua reputação. Situações que seriam melhor esclarecidas como um dos aspectos do transtorno bipolar, com o qual Nina conviveu a vida inteira, mas que só foi diagnosticado tardiamente.


Explosão ou períodos deprimidos, o excesso de trabalho aumentava e acelerava os sintomas do transtorno. Isso afetou todos os seus relacionamentos e com certeza a forma com a qual ela via a sua carreira.


I Put a Spell on You

“Ele me protegia de todos, menos dele”

Andrew era agressivo com Nina. Em várias situações, ela teve que se esconder na casa de alguns amigos. Em gravações ela relata um acontecido: estavam em uma discoteca e um fã veio até ela e a entregou um bilhete. Andrew a viu pegando e colocando no bolso. Ele voltou, a pegou pelo braço tirando ela de lá e a espancou até em casa, onde apontou uma arma para ela. Ela fugiu e quando Andrew a achou, duas semanas depois, fingiu que não tinha batido nela e que a estava procurando por duas semanas.

“Ele era brutal mas eu o amava”

Mississippi Goddam

Andrew tinha um planejamento para a carreira de Nina, que ela ganhasse vários prêmios e se tornasse a grande estrela que era. Porém, Nina queria algo mais, algo que fizesse tudo aquilo ter sentido. Ela queria um propósito.

No lançamento do álbum Nina Simone In Concert (1964) ela aborda a desigualdade racial e os direitos civis com a música “Mississippi Goddam”, revolucionária e incandescente como Nina. A música é uma resposta ao assassinato de Medgar Evers e ao bombardeio de uma igreja batista em Birmingham, no Alabama, em que quatro jovens morreram e uma quinta ficou cega. Nina disse que a música era “como atirar dez balas de volta para eles”. A música se tornou uma das muitas de protestos feitas por Nina.


I Wish I Knew How It Would Feel to Be Free

Nina em várias de suas entrevistas salienta a importância dos artistas de refletirem o seu tempo.

“Escolhi refletir meu tempo e as situações que me encontro. Para mim esse é o meu dever, e neste momento crucial de nossas vidas, quando tudo é tão desesperador, quando tenta apenas sobreviver a cada dia, não tem como não se envolver”

A paixão, criatividade e a necessidade de mudança a fizeram continuar. Em uma de suas entrevistas mais famosas ela diz que ser livre é não ter medo. Ela queria que com sua música todos pudessem se sentir livres.

“Eu podia cantar para ajudar meu povo, e esse virou o esteio da minha vida”

Durante esse período Nina conheceu vários ativistas, cantores, escritores, atrizes e atores que se sentiam compelidos a tomarem posição, assim como ela. Ela se conectou com essas pessoas com quem aprendeu muito, o que influenciou ainda mais suas músicas. Muitos deles escreveram coisas que Nina musicalizou. Como por exemplo Backlash Blues, escrita por seu amigo Langston Hughes, no álbum, Nina Simone Sings the Blues (1967). Em Silk & Soul (1967), gravou a canção I Wish I Knew How It Would Feel to Be Free, de Billy Taylor, e Turning Point.


Ela se tornou uma figura importante no movimento pelos direitos civis. Cantando em marchas, falando em shows. O que acabou fazendo com que sua carreira tenha sofrido boicotes, em especial, pelos estados do sul. Ela não se apresentava mais em programas de televisão, por causa de sua reputação. Andrew não gostou dos reflexos da luta de Nina em sua carreira, ele defendia que ela tinha que ser mais comercial. O relacionamento dos dois acabou se tornando cada vez mais difícil.

Don’t Let Me Be Misunderstood

“Acho que é uma coisa que escolhi fazer (se posicionar) e me senti compelida a fazer. Então é o meu papel. Às vezes gostaria que não fosse. Acho que artistas que não se envolvem em pregar mensagens devem ser mais felizes, mas eu tenho que viver com a Nina, o que é muito difícil.”

Don’t Let Me Be Misunderstood

Baby, you understand me nowIf sometimes you see I’m madDon’t you know no one alive can always be an angel?When everything goes wrong you see some badBut I’m just a soul whose intentions are goodOh, Lord, please, don’t let me be misunderstood


Não Me Deixe Ser Mal Entendida

Baby, você me entende agoraSe as vezes você vê que eu estou loucaNão sabia que ninguém pode sempre ser um anjo?Quando tudo dá errado, você vê um pouco de maldadeBem, eu sou apenas uma alma com boas intençõesOh, Senhor, por favor, não me deixe ser mal entendida


Why? (The King Of Love Is Dead)

Quando Martin Luther King foi assassinado, Nina ficou muito abalada. No álbum gravado três dias depois, Nuff Said! (1968), tem as gravações da música que o baterista Gene Taylor escreveu quando receberam a notícia. A morte de Martin, seguiu depois da morte de vários amigos de Nina, como Lorraine Hansberry, Langston Hughes.


“Como continuar? Percebem quantos perdemos? Tudo se resume à realidade, não é? Não um espetáculo. E sim a algo mais, de verdade. Não podemos nos dar o luxo de perder mais gente. Estão matando um por um. Não se esqueçam disso: porque eles estão.”

You’ve Got To Learn

A raiva e sintomas do transtorno bipolar ficavam cada vez mais evidentes. Gradativamente, ela estava próxima da queda livre. Os problemas no relacionamento com Andrew ficavam mais intensos. Sua carreira estava sendo cada vez mais boicotada. Nina estava mais insegura e cansada. Sentia que não havia mais vida para ela naquele país. Então, Nina se separou de Andrew e foi para Libéria. E mesmo com a separação, Andrew continuava sendo seu empresário.


Feeling Good

Nina relata o período na Libéria como um dos melhores momentos de sua vida. Sentia como se tivesse entrado no mundo com o qual ela sonhou a vida inteira. E se sentia cada vez mais distante da antiga vida.


“Agora estou em casa, agora estou livre. E não tem volta”

Quando sua filha estava na sétima série, Nina a levou para Libéria. A relação das duas era conturbada. Lisa relata que sua mãe deixou de ser o conforto de sua vida e passou a ser um monstro. Lisa, aos quatorze anos, decide voltar a morar com o pai nos Estados Unidos. Nesse período ela vivia como nômade e não se apresentava. O que a deixou sem dinheiro.


Nobody Knows You When You’re Down And Out

Para se reerguer ela não quis voltar aos Estados Unidos. Ela se mudou para a Suécia e se apresentou no festival de Jazz, em Montreux, em 1976. Ela estava sem dinheiro, Andrew havia se afastado dela e ela ficou perdida. Decidiu então ir para França, sozinha, acabando no lugar errado. Na França, ela trabalhava todos os dias e recebia pouco. A carreira dela não era a mesma, foi punida pela indústria, principalmente, por suas canções de protesto. Nina entrava cada vez mais em um episódio depressivo.


You’ll Never Walk Alone

Em 1982, ligou para seu amigo de longa data Gerrit de Bruin, que foi visitá-la. Ela estava morando num apartamento minúsculo, quase sem dinheiro, trabalhando muito e recebendo pouco. Nina estava em crises cada vez maiores. Vendo a situação, ele e outros amigos a ajudaram e a levaram para Holanda. Morando lá, um médico foi visitar Nina. Os amigos a ajudaram a reestruturar sua carreira, desde que ela seguisse o tratamento. Então ela voltou a se apresentar e colocou a carreira nos trilhos.

Mostrando sua música com todo seu coração e alma.


End Of Line

Nina foi tardiamente diagnosticada com Transtorno Bipolar do tipo 2. A doença é bastante difícil de ser diagnosticada e, no caso dela, foi encoberta por um longo período de depressão, com episódios leves de hipomania que foram se intensificando.


O diagnóstico só veio nos anos oitenta, devido aos médicos que desconfiaram dos acessos de raiva e agressividade, súbitas agitações e dos antidepressivos não fazerem efeito. Viveu sozinha desde 1981 e passou a morar em Paris em 1992. Em 1993, lançou seu último álbum A Single Woman (1993) e, infelizmente, descobriu um câncer avançado de mama.

Debilitada, tanto fisicamente e mentalmente, optou por se isolar. Apesar de uma boa resposta do tratamento, o câncer se espalhou. Após dez anos de tratamento, ela faleceu em sua casa na cidade de Carry-le-Rouet em 21 de abril de 2003. Poucos dias antes de sua morte, ela recebeu um diploma honorário da Curtis Institute por não a ter aprovado quando ela tinha dezenove anos.

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Quando o artista se abre de forma tão crua em sua obra como fez Nina, muitas leituras e interpretações podem ser feitas a partir de quem lê. Nina pode ser vista como agressiva, instável, raivosa ou até mesmo louca, como vi várias vezes, durante a pesquisa para a matéria.

Nina estava à frente de seu tempo. Como continuar sendo o que se é em um mundo que pede para que se adapte a ele? Nina foi uma porta-voz, expondo suas inquietações, medos e raivas. Seja na luta racial, em seus relacionamentos ou enfrentando seus próprios demônios. O quanto a demora de um diagnóstico difícil e complexo pode influenciar na vida de uma pessoa?

Ouvir Nina cantando com toda sua alma, convicção, dor e verdade me fez, pelo menos em parte, ser quem sou e escrever sobre ela abre várias feridas. Mergulhar em sua vida e obra é visitar algumas das minhas questões também. Quando Nina canta ou toca, ela escancara parte de algumas angústias que não sabia bem de onde vinham e muito menos como explicá-las.

Na música You’ve Got To Learn, Nina canta quase que como um lembrete para ela mesma, sobre todas as coisas que ela tem que aprender. Em alguns momentos tem sido meu lembrete também. “Você tem que aprender a ser muito mais forte nos tempos em que sua cabeça deve reger o seu coração”

“But good is thinking of tomorrowWho knows what it may have been stored?”Mas é bom pensar no amanhãQuem sabe o que pode ter sido guardado?


Todas as citações foram retiradas do documentário What Happened Miss Simone? (2015)




REFERÊNCIAS

Nina Simone, voz para a música e para a luta por direitos. Instituto Ling, 2020. Disponível em: <https://institutoling.org.br/explore/nina-simone-voz-para-a-musica-e-para-a-luta-por-direitos>. Acesso em: 26 de janeiro de 2021

What happened, Miss Simone? . Direção de Liz Garbus.Netflix, 2015. (101 min.).

A bem-sucedida canção secundária de Nina Simone. El país, 2020. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/brasil/2020/07/22/eps/1595420960_695556.html>. Acesso em: 26 de janeiro de 2021

Nina Simone, a completude humana pela arte. Obvious Mag, 2015. Disponível em: <http://obviousmag.org/travessia/2015/03/nina-simone-a-completude-humana-pela-arte-amor-talento-e-conviccao.html>. Acesso em: 26 de janeiro de 2021

Nina Simone at Carnegie Hall. Carnegie Hall, 2020. Disponível em: <https://www.carnegiehall.org/Explore/Articles/2020/04/13/Nina-Simone-at-Carnegie-Hall>. Acesso em: 26 de janeiro de 2021

Nina Simone. Nina Simone, Vimeo Disponível em: <https://vimeo.com/ninasimone>. Acesso em: 26 de janeiro de 2021


 
 
 

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